quarta-feira, 20 de abril de 2011
Walden
"Nesse meio tempo o anfitrião contava-me a sua história, quão duro trabalhara "atolando-se" para um fazendeiro da vizinhança, cavoucando um prado à razão de vinte dólares o hectare, com o direito de usar a terra adubada durante um ano, tendo a seu lado no serviço o diligente garoto de cara larga, que nem sequer suspeitava da péssima barganha do pai. Tentei ajudá-lo com a minha experiência, dizendo-lhe que era dos meus vizinhos mais próximos, e também que eu, que viera até ali pescar e poderia parecer um vagabundo, estava que nem ele ganhando a vida; que eu vivia numa casinha clara e limpa, dificilmente mais cara do que o aluguel anual de uma em tão péssimas condições como a dele; e como, se ele se dispusesse a isso, poderia num mês ou dois construir para si um palácio; que eu não tomava chá, café ou leite, nem comia manteiga nem carne fresca, não precisando portanto trabalhar para obtê-los; coerentemente, como não trabalhava muito, não precisava comer muito, e a comida me saía por uma bagatela; mas se ele se dava ao luxo de tomar chá, café e leite, e comer manteiga e bifes, teria que dar duro para pagá-los, e quando tivesse dado duro teria que comer muito para repor o desgaste de energia — e assim sendo dava tudo no mesmo, e só não dava no mesmo porque ele estava insatisfeito e desperdiçava sua vida na transação; e contudo, ao vir para a América, ele considerara uma vantagem que aqui se pudesse obter chá, café e carne todos os dias. Mas a única América verdadeira é aquela onde se é livre para viver de tal modo que se possa dispensar tudo isso, e onde o Estado não se empenhe em constranger o indivíduo a sustentar a escravidão, a guerra e outras despesas supérfluas, que direta ou indiretamente resultam do uso de tais coisas."
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